Tiago FonsecaVIEW PROFILE →
Miguel Gomes rueda "Selvajaria": o realizador português leva a guerra de Canudos ao grande ecrã
Depois do triunfo em Cannes com "Grand Tour", Miguel Gomes filma o seu projeto mais ambicioso. "Selvajaria" adapta "Os Sertões" de Euclides da Cunha e recria a guerra de Canudos, numa coprodução entre Portugal e o Brasil que promete voltar a colocar o cinema português n
O cinema português tem um novo motivo para orgulho, e vem da mão do seu realizador mais celebrado da atualidade. Miguel Gomes começou a rodar aquele que promete ser o projeto mais ambicioso da sua carreira. A notícia tem circulado nos meios especializados e desperta enorme expectativa entre cinéfilos de todo o mundo. Para os apreciadores de cinema de autor, este é um dos filmes mais aguardados dos próximos tempos.
Miguel Gomes nasceu em Lisboa em 1972 e formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ao longo de mais de duas décadas construiu uma linguagem singular, feita de humor, melancolia e uma liberdade formal pouco comum no cinema contemporâneo. Filmes como "Aquele Querido Mês de Agosto" e "Tabu" cedo o afirmaram como uma das vozes mais originais do panorama europeu. A sua obra combina a tradição do cinema português com um olhar profundamente pessoal.
O reconhecimento internacional atingiu o auge em 2024, no Festival de Cannes. Gomes venceu o prémio de Melhor Realizador com "Grand Tour", tornando-se o primeiro cineasta português a conquistar essa distinção na história do certame. O feito colocou o seu nome ao lado dos grandes autores contemporâneos e reforçou a projeção do cinema nacional. Foi um marco celebrado em Portugal e comentado na imprensa especializada de todo o mundo.
O novo filme: Selvajaria

O novo projeto chama-se "Selvajaria", conhecido internacionalmente pelo título inglês "Savagery". As filmagens principais arrancaram em fevereiro de 2026, dando início a uma produção de grande fôlego. O filme representa uma mudança de escala face a trabalhos anteriores, com uma ambição narrativa e histórica evidente. Trata-se de uma das apostas mais fortes do cinema europeu para os próximos anos.
A obra adapta "Os Sertões", o monumental livro publicado em 1902 por Euclides da Cunha. Considerado um dos pilares da literatura brasileira, o volume mistura crónica, ensaio e reportagem sobre um episódio marcante da história do país. Levar este texto denso e complexo ao cinema é, por si só, um desafio de enorme dimensão. Gomes assume assim o risco de dialogar com uma das obras fundadoras da identidade cultural lusófona.
No centro da narrativa está a guerra de Canudos, um conflito sangrento ocorrido no final do século XIX. No sertão da Bahia, uma comunidade reunida em torno de um líder messiânico enfrentou repetidas ofensivas do exército da jovem República brasileira. O confronto terminou em tragédia e tornou-se símbolo das tensões sociais e religiosas do país. É esta história de fé, revolta e repressão que o filme se propõe recriar.
Depois de vencer em Cannes, Miguel Gomes adapta "Os Sertões" e transforma a guerra de Canudos num épico entre Portugal e o Brasil.
Elenco e produção
O argumento foi escrito por Miguel Gomes em colaboração com Maureen Fazendeiro, Mariana Ricardo e Telmo Churro. Trata-se de uma equipa de escrita que já acompanha o realizador em projetos anteriores e conhece bem o seu universo. Esta cumplicidade criativa tem sido uma das marcas do seu método de trabalho. A construção coletiva do guião reflete o espírito colaborativo que sempre definiu o seu cinema.
No elenco destaca-se a atriz brasileira Grace Passô, nome reconhecido do teatro e do cinema do Brasil. A sua presença reforça a ponte artística entre os dois países que atravessa todo o projeto. A escolha de intérpretes brasileiros para uma história brasileira dá autenticidade à recriação histórica. É também um sinal da vocação lusófona e transatlântica desta produção.
A rodagem começou em Portugal e está prevista a passagem para o Brasil ainda durante 2026. Essa deslocação permitirá filmar nos cenários naturais que inspiraram o livro original. A logística de uma produção repartida por dois continentes exige meios consideráveis e uma organização rigorosa. É o tipo de aposta que confirma a escala invulgar do filme no contexto do cinema português.
As vendas internacionais estão a cargo da Luxbox, empresa que leva o filme aos principais mercados do setor. A presença de um agente de vendas experiente indica confiança no potencial comercial e artístico da obra. Este tipo de apoio é decisivo para garantir a circulação do filme nos grandes festivais e nas salas de vários países. A expectativa é que "Selvajaria" venha a marcar presença nos certames mais prestigiados.
Um novo momento para o cinema português
O percurso recente de Miguel Gomes confirma a boa saúde criativa do cinema nacional. Em junho de 2025 foi convidado a integrar o ramo de realizadores da Academia de Hollywood, responsável pelos Óscares. Somando a este reconhecimento os prémios anteriores em Berlim e noutros festivais, o realizador consolidou uma carreira de projeção mundial. "Selvajaria" surge assim como o próximo capítulo de uma trajetória em ascensão.
Para o público português, este filme representa muito mais do que um simples lançamento. É a prova de que o talento nacional continua a dialogar de igual para igual com as grandes cinematografias do mundo. A coprodução com o Brasil reforça ainda os laços culturais entre países que partilham a mesma língua. Resta agora aguardar pela estreia e descobrir como Gomes traduz em imagens uma das histórias mais dramáticas do universo lusófono.





