Tiago FonsecaVIEW PROFILE →
Reconhecimento lá fora, desafios cá dentro: o cinema português em 2026
O cinema português vive em 2026 um contraste marcante: o triunfo internacional de Miguel Gomes e uma nova vaga de filmes nacionais, contra uma bilheteira em queda. Uma leitura serena.
Como quem acompanha o cinema há anos, aprendi a olhar para uma cinematografia nacional pelos seus contrastes, e não por um único filme. O cinema português em 2026 é um retrato perfeito desses contrastes. De um lado, um reconhecimento internacional que há muito não se via; do outro, uma sala de cinema em casa que atravessa um dos seus momentos mais difíceis. Vale a pena olhar para ambos com calma.
Um triunfo internacional
Comecemos pela boa notícia. Miguel Gomes venceu o prémio de Melhor Realizador no 77.º Festival de Cannes com Grand Tour, tornando-se o primeiro realizador português a conquistar essa distinção. O filme valeu-lhe ainda o Silver Hugo de Melhor Realizador no Festival Internacional de Chicago e foi a candidatura oficial de Portugal aos Óscares de 2025. Em 2025, Gomes foi convidado a integrar a Academia de Hollywood.
Novos projetos a caminho
O trabalho de Gomes não fica por aqui. O seu ambicioso projeto Savagery, ou Selvajaria, anunciado pela primeira vez em 2020, foi apresentado ao mercado no Festival de Cannes de 2026 pela agência de vendas Luxbox. A ação decorre na paisagem do Nordeste do Brasil. Que um cineasta português desenvolva uma obra desta escala e ambição internacional diz muito sobre a maturidade criativa que o país é hoje capaz de mostrar.
Uma nova vaga cá dentro
Também dentro de portas há movimento. Estreou a 26 de fevereiro uma dupla sessão com Terra Vil, de Luís Campos, e o documentário Balane 3, de Ico Costa. Terra Vil é a primeira longa-metragem de Campos e conta com Lúcia Moniz e Rúben Gomes no elenco. Segundo a imprensa, pelo menos dez filmes portugueses deverão chegar às salas apenas no primeiro trimestre de 2026, um sinal de vitalidade da produção nacional.
A bilheteira em crise
Nem tudo, porém, são boas notícias. A bilheteira portuguesa registou o pior ano deste século fora do período de pandemia, com uma quebra de 8,2 por cento nas entradas face a 2024. Ainda assim, chegaram às salas 406 filmes em 2025, dos quais 54 foram produções nacionais, representando 13,3 por cento das estreias. O desafio é claro: há mais cinema português do que nunca, mas menos espectadores nas salas.
O meu olhar equilibrado
Perante este quadro, procuro manter o equilíbrio. Os prémios internacionais são motivo de orgulho, mas não pagam sozinhos as contas de uma indústria que precisa de público. A quebra na bilheteira é um aviso sério, ligado a hábitos em mudança e à concorrência do streaming. Ainda assim, vejo a direção como saudável: há talento e ambição a sobra. A verdadeira prova será reconquistar o espectador para a sala escura.






