Tiago FonsecaVIEW PROFILE →
O regresso do filme monstro: porque é que o cinema voltou a abraçar as grandes obras de muitas horas
De uma obra de sete horas de Luca Guadagnino em Veneza aos épicos ambiciosos que enchem as salas, o cinema parece ter voltado a abraçar a duração extrema. Analiso porque é que os filmes estão a ficar mais longos e o que isso diz sobre nós, espetadores.
Escrevo sobre cinema há muito tempo, e uma das tendências que mais me tem fascinado ultimamente é aparentemente contraditória com a época em que vivemos. Numa altura em que consumimos vídeos de poucos segundos e séries em episódios cada vez mais curtos, o grande ecrã parece estar a fazer exatamente o oposto, abraçando de novo o filme monstro, a obra ambiciosa que se estende por muitas e muitas horas.
O exemplo mais espetacular desta tendência chega-nos diretamente do Festival de Veneza deste ano, que decorre no Lido entre dois e doze de setembro. É lá que Luca Guadagnino, um dos realizadores mais celebrados da atualidade, vai apresentar Joie de Vivre, uma obra que, segundo se sabe, tem a duração verdadeiramente arrojada de cerca de sete horas.
Confesso que, quando li o número, tive de o reler para ter a certeza de que não me tinha enganado, porque sete horas é algo absolutamente fora do comum. Estamos a falar de um filme que dura quase um dia de trabalho inteiro, uma proposta que exige do espetador um compromisso quase heroico e que, só por si, já se tornou um dos maiores temas de conversa da temporada.
Uma tendência que vai muito além de um filme

Seria fácil descartar o caso de Guadagnino como uma excentricidade isolada de um autor, mas eu não creio que seja esse o caso de todo. Este filme surge num contexto mais amplo em que a duração e a ambição voltaram a estar na moda, como demonstrou recentemente o enorme sucesso de bilheteira de uma obra épica e longa como a Odisseia de Christopher Nolan.
Quando um épico exigente consegue tornar-se um fenómeno mundial de bilheteira, isso envia um sinal muito claro a toda a indústria do cinema. A mensagem é a de que o público, afinal, não fugiu necessariamente das obras densas e demoradas, e que há um apetite real por experiências cinematográficas que sejam grandiosas, imersivas e verdadeiramente memoráveis.
Veneza, aliás, é o palco perfeito para esta afirmação de ambição, com um cartaz repleto de nomes maiores do cinema de autor. Realizadores como Werner Herzog, Hirokazu Koreeda ou Lee Chang-dong convivem com estrelas como Robert Pattinson, Penélope Cruz e Alicia Vikander, num festival que celebra precisamente o cinema que se atreve a ser mais do que mero entretenimento ligeiro.
Porquê agora, na era da pressa
A grande questão que me intriga é porquê agora, precisamente no momento em que a nossa atenção parece mais fragmentada do que nunca. A minha teoria é que estamos a assistir a uma espécie de reação, um contragolpe à cultura do consumo rápido e descartável, tanto por parte dos criadores como de uma fatia significativa do público mais exigente.
Para os realizadores, propor uma obra de muitas horas é uma forma de reivindicar o cinema como uma arte séria, digna de tempo e de contemplação. É afirmar que uma história complexa merece espaço para respirar e para se desenvolver sem pressas, em contraste direto com a lógica do algoritmo que nos empurra sempre para o conteúdo seguinte antes mesmo de terminarmos o atual.
Para o espetador, por outro lado, ir ao cinema ver uma destas obras torna-se quase um acontecimento, um ritual quase sagrado. Numa era em que podemos pausar tudo a qualquer momento em casa, sentar-se numa sala escura e entregar-se por completo a uma única história durante horas é um ato de resistência e de imersão que muitos de nós, secretamente, ainda ansiamos por viver.
Um desafio às salas e ao público
Claro que esta tendência levanta desafios muito concretos e nada românticos, que seria desonesto ignorar. Um filme de sete horas coloca problemas óbvios de logística às salas de cinema, desde o número de sessões possíveis por dia até à própria resistência física do público, o que obriga a soluções criativas como intervalos ou exibições divididas em partes.
Há também o risco artístico, porque duração não é sinónimo de qualidade, e um filme longo mal conseguido pode tornar-se uma experiência penosa. A ambição só compensa quando cada minuto se justifica, e caberá aos críticos e ao público decidir se estas obras monumentais são genuínas obras-primas ou apenas exercícios de vaidade demasiado indulgentes por parte dos seus autores.
Ainda assim, a minha inclinação pessoal é claramente a de celebrar esta coragem, mesmo com todas as ressalvas. Prefiro mil vezes um cinema que se atreve a ser demasiado ambicioso do que um cinema que se resigna a ser sempre seguro, previsível e formatado para não incomodar ninguém nem exigir nada de quem o vê.
A minha reflexão final
Para mim, este regresso do filme monstro é, no fundo, uma declaração de fé no poder duradouro do grande ecrã e da narrativa longa. Mostra que, apesar de todas as previsões sobre a morte do cinema, ainda há espaço para obras que nos pedem tempo, atenção e entrega, e que recompensam essa entrega com algo que uma janela de vídeo no telemóvel dificilmente conseguirá igualar.
Vou acompanhar com enorme curiosidade a receção a Joie de Vivre em Veneza e a forma como estas obras chegarão depois às nossas salas e casas. Porque no fundo, quer durem sete minutos ou sete horas, o que realmente importa é que o cinema continue a arriscar, a surpreender-nos e a lembrar-nos porque nos apaixonámos por esta arte logo à primeira vista.






