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O regresso do filme monstro: porque é que o cinema voltou a abraçar as grandes obras de muitas horas

culture2026-08-24 · 4 min read · 117 reads

De uma obra de sete horas de Luca Guadagnino em Veneza aos épicos ambiciosos que enchem as salas, o cinema parece ter voltado a abraçar a duração extrema. Analiso porque é que os filmes estão a ficar mais longos e o que isso diz sobre nós, espetadores.

Escrevo sobre cinema há muito tempo, e uma das tendências que mais me tem fascinado ultimamente é aparentemente contraditória com a época em que vivemos. Numa altura em que consumimos vídeos de poucos segundos e séries em episódios cada vez mais curtos, o grande ecrã parece estar a fazer exatamente o oposto, abraçando de novo o filme monstro, a obra ambiciosa que se estende por muitas e muitas horas.

O exemplo mais espetacular desta tendência chega-nos diretamente do Festival de Veneza deste ano, que decorre no Lido entre dois e doze de setembro. É lá que Luca Guadagnino, um dos realizadores mais celebrados da atualidade, vai apresentar Joie de Vivre, uma obra que, segundo se sabe, tem a duração verdadeiramente arrojada de cerca de sete horas.

Confesso que, quando li o número, tive de o reler para ter a certeza de que não me tinha enganado, porque sete horas é algo absolutamente fora do comum. Estamos a falar de um filme que dura quase um dia de trabalho inteiro, uma proposta que exige do espetador um compromisso quase heroico e que, só por si, já se tornou um dos maiores temas de conversa da temporada.

Uma tendência que vai muito além de um filme

Numa era de vídeos de segundos, há realizadores que apostam no oposto: obras de muitas horas que exigem tempo, paciência e total entrega do espetador.
Numa era de vídeos de segundos, há realizadores que apostam no oposto: obras de muitas horas que exigem tempo, paciência e total entrega do espetador.

Seria fácil descartar o caso de Guadagnino como uma excentricidade isolada de um autor, mas eu não creio que seja esse o caso de todo. Este filme surge num contexto mais amplo em que a duração e a ambição voltaram a estar na moda, como demonstrou recentemente o enorme sucesso de bilheteira de uma obra épica e longa como a Odisseia de Christopher Nolan.

Quando um épico exigente consegue tornar-se um fenómeno mundial de bilheteira, isso envia um sinal muito claro a toda a indústria do cinema. A mensagem é a de que o público, afinal, não fugiu necessariamente das obras densas e demoradas, e que há um apetite real por experiências cinematográficas que sejam grandiosas, imersivas e verdadeiramente memoráveis.

Veneza, aliás, é o palco perfeito para esta afirmação de ambição, com um cartaz repleto de nomes maiores do cinema de autor. Realizadores como Werner Herzog, Hirokazu Koreeda ou Lee Chang-dong convivem com estrelas como Robert Pattinson, Penélope Cruz e Alicia Vikander, num festival que celebra precisamente o cinema que se atreve a ser mais do que mero entretenimento ligeiro.

Porquê agora, na era da pressa

A grande questão que me intriga é porquê agora, precisamente no momento em que a nossa atenção parece mais fragmentada do que nunca. A minha teoria é que estamos a assistir a uma espécie de reação, um contragolpe à cultura do consumo rápido e descartável, tanto por parte dos criadores como de uma fatia significativa do público mais exigente.

Para os realizadores, propor uma obra de muitas horas é uma forma de reivindicar o cinema como uma arte séria, digna de tempo e de contemplação. É afirmar que uma história complexa merece espaço para respirar e para se desenvolver sem pressas, em contraste direto com a lógica do algoritmo que nos empurra sempre para o conteúdo seguinte antes mesmo de terminarmos o atual.

Para o espetador, por outro lado, ir ao cinema ver uma destas obras torna-se quase um acontecimento, um ritual quase sagrado. Numa era em que podemos pausar tudo a qualquer momento em casa, sentar-se numa sala escura e entregar-se por completo a uma única história durante horas é um ato de resistência e de imersão que muitos de nós, secretamente, ainda ansiamos por viver.

Um desafio às salas e ao público

Claro que esta tendência levanta desafios muito concretos e nada românticos, que seria desonesto ignorar. Um filme de sete horas coloca problemas óbvios de logística às salas de cinema, desde o número de sessões possíveis por dia até à própria resistência física do público, o que obriga a soluções criativas como intervalos ou exibições divididas em partes.

Há também o risco artístico, porque duração não é sinónimo de qualidade, e um filme longo mal conseguido pode tornar-se uma experiência penosa. A ambição só compensa quando cada minuto se justifica, e caberá aos críticos e ao público decidir se estas obras monumentais são genuínas obras-primas ou apenas exercícios de vaidade demasiado indulgentes por parte dos seus autores.

Ainda assim, a minha inclinação pessoal é claramente a de celebrar esta coragem, mesmo com todas as ressalvas. Prefiro mil vezes um cinema que se atreve a ser demasiado ambicioso do que um cinema que se resigna a ser sempre seguro, previsível e formatado para não incomodar ninguém nem exigir nada de quem o vê.

A minha reflexão final

Para mim, este regresso do filme monstro é, no fundo, uma declaração de fé no poder duradouro do grande ecrã e da narrativa longa. Mostra que, apesar de todas as previsões sobre a morte do cinema, ainda há espaço para obras que nos pedem tempo, atenção e entrega, e que recompensam essa entrega com algo que uma janela de vídeo no telemóvel dificilmente conseguirá igualar.

Vou acompanhar com enorme curiosidade a receção a Joie de Vivre em Veneza e a forma como estas obras chegarão depois às nossas salas e casas. Porque no fundo, quer durem sete minutos ou sete horas, o que realmente importa é que o cinema continue a arriscar, a surpreender-nos e a lembrar-nos porque nos apaixonámos por esta arte logo à primeira vista.

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